segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Cicatriz

Já cantavam há algum tempo que animal ferido domesticado esquece o risco. Quando passamos uma certa idade das nossas vidas desapegamos a algo que era temporário que nos tornou familiar e confortável. Depois de tanto andar com os curativos daquela ferida agora chega a hora de sarar, de deixar a cama e ir para a luta. Chega a hora de seus pais não te darem mais aquela sopa, nem talvez porque você precisasse de alguém para o alimentar, mas de alguém para te fazer companhia. Pegando o ônibus que vai para longe de sua cidade natal, que vai te afastar de sua província por muito tempo no calar da noite. Vendo as luzes da cidade passando por você até ficarem distante e apenas restar a escuridão da estrada, o barulho do motor e algumas lágrimas salgadas. É uma pele que cai e arde pela sensibilidade da nova, estranha ao mundo. O que era comum agora fica raro, o que era banal agora fica essencial. Parece estar em país estrangeiro mesmo rodeado de lugares comuns. Sabe que precisa encarar com sentimento maduro o que lhe causa temor infantil. Um temor que lhe entristece mas que não o impede. Procurando um calor fundamental à sua alma em meio a frieza do real. O real que é menos romântico que sua imaginação e se apoia no primeiro sorriso sincero descompromissado.

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